Festival Y #08 – Auditório do Teatro das Beiras, “200 gr.”

200gr. não é a forma de eu dizer eu.

É uma forma de exibição mas não assumida.

200gr. é uma forma de dizer um.

António Júlio, "200 gr."

Se numa embalagem não existisse senão a designação de peso, nada ficaríamos a saber acerca da natureza do seu conteúdo. Esperaríamos pela sua revelação. Ansiaríamos por abrir a embalagem e conhecer o produto. E poderia ser que o produto do interior fosse outra embalagem com a designação de peso, que nos instigasse a continuar.

200gr. apresenta uma verdade escondida. Muitas vezes revelada, muitas vezes distorcida. É um lugar de existência.

Há uma tela de projecção que separa o público do performer. Nessa tela passa-se tudo o que é possível ver. Ao espectador é vedado o acesso ao que se passa, mas este pode ir adivinhando, pelos sons que ouve, pelo que imagina, pelo que projecta.

Na tela, sempre em sombra chinesa, vão passando personagens; conta-se pequenas histórias, ou histórias interrompidas – momentos que se relacionam uns com os outros por todos partirem de um só corpo, do mesmo sempre, que se multiplica, mutila, amplia, recorta ou reinventa. Joga-se com surpresa, num tempo suspenso, sem palavras ditas, nem música tocada. Tudo parte do silêncio e da luz para a obscuridade. É um espectáculo visual, minimal e sensível que deixa ao espectador a possibilidade de lhe acrescentar sons, palavras ou expressão a um rosto sem identidade.

O que eu apresento, do que eu falo é de identidade, da minha, de mim. Mas essa identidade é sempre a construção que faz o espectador. Não digo o meu nome, uso-me como um qualquer. E as respostas que tenho tido são de quem ao ver um, vê-se a si próprio em projecção e apõe-lhe as suas próprias histórias.

António Júlio

 

De > António Júlio

Produção > MUGATXOAN 2006 / Arteleku Gipuzkoako Foru Aldundia / Fundação de Serralves

Concepção e Interpretação > António Júlio

Desenho de Estrutura > Nuno Brandão

Fotografia > Raquel Pereira

Design > hicns

Apoio em espectáculo > Andrea Moisés

 

Biografia:

António Júlio estudou Teatro na Academia Contemporânea do Espectáculo, curso de Interpretação e Escultura na Faculdade de Belas Artes do Porto. É intérprete de Teatro e Dança desde 1999, tendo trabalhado com Joana Providência, Nuno Cardoso, João Paulo Costa, na Cia Circolando, Kuniaki Ida, Meg Stuart, Rogério de Carvalho, Francisco Alves, André Guedes, entre outros. Dirigiu o grupo de teatro da Faculdade de Engenharia do Porto entre 2004 e 2008, é professor de Interpretação na Academia Contemporânea do Espectáculo e faz parte da equipa de trabalho Mugatxoan desde 2007. O seu trabalho como criador situa-se entre o teatro, a dança e a performance. Das suas criações mais recentes destaca “Recuperados”, para o TUP (Porto, 2009) “Boots and Breath” para a Companhia Instável (Espace des Arts, Chalon sur Saône, 2008), “Eunice” (Teatro do Campo Alegre, Porto, 2007) e “200gr” (Mugatxoan/ Arteleku, San Sebastian / Fundação Serralves, Porto, 2006).

Espectáculo presente no Mugatxoan, uma organização conjunta Arteleku – San Sebastian, Teatro de La Laboral- Gijon e Fundação Serralves – Porto.


 

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