projecto transparências / helena botto > “o álbum”| 22.Out.’09 > 21h30

Sinopse:
Da impermanência…
O Álbum é uma criação híbrida que entrecruza os universos da performance, da fotografia, do vídeo, da imagem em tempo real e da música, utilizando como fio dramatúrgico condutor alguns fragmentos de textos de Câmara Clara de Roland Barthes e de Crave de Sarah Kane. Há nesta amálgama de linguagens um elemento que as contrapõe: a questão da imobilidade e do devir. Tal como a fotografia, a música, as imagens de vídeo e os textos, não estão sujeitos à mudança e ao desgaste (a menos que deliberadamente neles intervenhamos a posteriori da sua concepção), no entanto o corpo (performance) esse estará irremediavelmente sujeito ao desgaste, à perda, à transformação. É talvez a cruel fatalidade a que não poderemos escapar e sobre a qual nos propomos reflectir.
Um corpo emerge do Álbum da Memória, um espaço constituído por cerca de 2000 fotografias pessoais. Este aglomerado de imagens privadas, constitui aquilo a que se chamou o Álbum da Memória. São fotos de infância misturadas com fotos recentes, fotos de trabalho, fotos de férias, fotos de festas, fotos de pessoas, instantâneos recolhidos à socapa, fotos roubadas de outras pessoas, de outras vidas, outras vidas partilhadas, outras vidas cruzadas.
É então a partir desta mancha de imagens paralisadas, fixadas em papel fotográfico, que todo o processo performativo se vai construindo. Diante da unicidade de uma imagem, há determinados pormenores (o punctum de que nos fala Roland Barthes) de algumas fotos que subjectivamente foram destacados e que provocaram associações psico-fisicas e comportamentos que se foram construindo. Diante da unicidade do Álbum da Memória, houve determinadas fotografias que se destacaram talvez porque tenham causado uma vertigem temporal, porque remeteram o corpo para um universo de memórias, porque cruelmente afirmaram aquilo que foi e não aquilo que imaginámos ter sido…
Estes pormenores imutáveis de fotografias e estas fotografias imutáveis, estes fragmentos da realidade são destacados e instalados na tela vazia, orgânica e sujeita ao desgaste que é o corpo da performer, este corpo reage através de uma linha de comportamentos também ela fragmentária a estes estímulos, criando e construindo, à medida que a performance se desenvolve, um novo álbum, talvez ainda mais privado e pessoal, O Álbum Interior.
E porque este novo álbum é corpo (corpo-memória) está ele próprio sujeito ao devir, à transformação, à perda, urge a necessidade de o guardar, de o gravar, talvez numa tentativa cruel (?) de paralização temporal. Um registo fotográfico deste álbum interior vai sendo feito à medida que a performance decorre. Estas novas fotografias impressas originarão um novo álbum, a Memória do Álbum Interior.
Barthes diz-nos, “a fotografia é violenta, não porque mostre violência mas (…) porque nela nada pode recusar-se ou transformar-se.”… a paralização e a fragmentação temporal são violentas, sem dúvida a incapacidade do devir é monstruosa… mas o tempo que passa, e as alterações que vamos sofrendo, as pessoas, os momentos, todo um conjunto de inefabilidades que se vão perdendo, e que serão sempre irrecuperáveis, não serão elas ainda mais violentas? O que são as nossas fotografias quotidianas senão o registo de momentos que queremos por alguma razão fixar? não será a perda desses momentos e o seu devir ainda mais violento? Contra argumentando, diríamos que a passagem do tempo, as transformações a que vamos estando sujeitos acabarão por nos trazer outras vivências e por eliminar gradualmente os sentimentos de perda… Quanto à primeira parte de acordo, quanto segunda só posso concordar com Barthes: “diz-se que o luto com o seu trabalho progressivo elimina lentamente a dor. Eu não podia nem posso acreditar nisso, porque para mim o tempo elimina a emoção da perda (não choro), é tudo. Quanto ao resto, tudo ficou imóvel.”
Helena Botto
Ficha Artística:
Conceito, direcção artística, concepção plástica e instalação espacial, dramaturgia e performance > Helena Botto
Composição musical original e sonoplastia > João Figueiredo
Edição e mistura de vídeo > Cláudio Oliveira
Performers no vídeo > Helena Botto e Pedro Bastos
Texto > fragmentos de “Câmara Clara” de Roland Barthes e de “Crave” de Sarah Kane
Desenho de luz > José Nuno Lima
Operação de luzes > João Teixeira
Design gráfico > Look Concepts
Produção executiva > Helena Botto / Projecto Transparências – criação de objectos performativos – associação
Registo fotográfico da performance > Susana Neves
Registo videográfico da performance > António Fonseca / Cine-Clube de Avanca
Agradecimentos > André de Brito Correia, Ana Sofia Ricardo, António Costa Valente, Bruno Reis / João Veludo (e à equipa do Gretua), Hugo Martins, João Mendes, José Filipe Pereira, Pedro Bastos e família Bastos, Teresa Gomes de Albuquerque, Tiago Castro e um agradecimento muito especial a Emanuel Pina.
Produção > PerFormas
Co-produção > Projecto Transparências – criação de objectos performativos – associação.
Tradução textos do catálogo > Teresa Gomes de Albuquerque
Apoios > Fundação Calouste Gulbenkian (programa Novos Encenadores), Instituto Português da Juventude, MC/ Direcção Geral das Artes, Look Concepts e Diário de Aveiro.
Biografia:
Fundado em Aveiro em Dezembro de 2006, o PROJECTO TRANSPARÊNCIAS- criação de objectos performativos é uma estrutura que alberga um projecto de autor, dedicada à pesquisa e criação no âmbito das artes performativas, situando as suas acções nas linguagens contemporâneas, privilegiando a experimentação, o trabalho do performer e a sua relação interdisciplinar com outras áreas artísticas.
Na construção do discurso performativo, as suas procuras incidem na estruturação e desenvolvimento de uma linha técnico-metodológica objectiva, assente numa relação de corporeidade/organicidade, que permite a consubstancialização do processo criativo no trabalho do performer. O corpo, enquanto ferramenta do processo criativo, torna-se um veículo orgânico, um canal transparente capaz de transmitir estímulos e motivações diversas e comportamentos psico-físicos de teor extra-quotidiano.
Na criação de objectos performativos, a intersubjectividade do performer estende-se a domínios estéticos muito próprios que, para responder às suas necessidades criativas, recorre à interacção com outras disciplinas, como sendo a música, as artes plásticas e visuais, o vídeo e a multimédia, e.o.
ORG.: QUARTA PAREDE – ASSOCIAÇÃO DE ARTES PERFORMATIVAS DA COVILHÃ
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